"Hoje, se pudesse, dava a volta ao mundo. Fazia de um minuto, um segundo. Pintava uma tela de preto. Compunha uma música. Lia o Corão. Ia ao espaço e voltava. Perguntava-me para e porque é que existes em mim. E fazia tudo isto para te poder perceber. Para te poder tirar tudo o que em ti ficou. Para me poder dar tudo o que de mim saiu.
Sabes como nos lembro tão bem… Éramos tão de nós e para nós. Vivíamos tão para o que tínhamos. Davas-me um sorriso e eu, Meu Deus!, eu via-me tão bem nele. Embora nunca tenhas tido o que mais idealizei (e o que sempre idealizei) em alguém que seria perfeito para mim… Sempre gostei tanto de ti. Se soubesses isto, tenho a certeza, voltavas para mim.. Se soubesses isto, tenho a certeza,…
Sugas-me cada pedaço de alma, tiras-me o fôlego, lavas-me o espírito, levas-me o coração. Tiras-me, como sempre me tiraste, o que nunca ninguém poderia tirar, por ser tão meu, por trazer comigo sempre: roubas-me a inocência, dás-me a ignorância, brincas comigo, usas-me. E pensas que não sei, que nunca sei, fazes por me esconder. E não era tão melhor se não soubesse? Era feliz, era melhor. Mas sei, e pesa por isso mesmo, pesa porque sei e não consigo fazer nada. Não te consigo afastar de mim.
Ontem, quando nos beijámos, sabes o que senti? Voltei a sentir as pernas a tremer, aquele “je ne sais quois” tão próprio de quem está apaixonado… Melhor do que isso: voltei a sentir a tua língua tocar a minha, voltei a sentir as tuas mãos assentarem sobre a minha anca num gesto de, talvez, quem sabe, sedução. O teu abraço, bem fechado, vale mais que todos os milhares de estrelas que observo todas as noites. A tua mão, entrelaçada na minha, vale mais que todas as constelações do mundo. O teu olhar, sempre tão cheio, vale mais do que toda a sabedoria. O teu sorriso, esse, Meu Deus, dava-me a mim, de corpo e alma, por ele.
A pele do teu pescoço que tantas vezes achei ser meu, voltei a senti-la…Tive oportunidade de, num momento de carinho, poder passar os meus lábios por ela. Seguras-me a mão e, naquele momento, tive a certeza, fui tua.
Abraça-me outra vez. Beija-me outra vez. Deixa-me mostrar-te como nunca, nunca quis deixar de ser tua. Quis fazer amor contigo toda a noite. Até adormecer nos teus braços. Como sempre sonhei. Quis que voltasse a haver um nós a preencher o que nunca foi nosso. Quis dizer-te tanto… Mostrar-te tanto…
Explico-te, agora, pelo meio que melhor sei ser, pelo meio no qual melhor me sei mostrar, como tenho tantas saudades tuas. Digo-te agora, por meio de palavras que me vão sendo arrancadas, como te quero.
Confesso-te, então, num jeito meio sem jeito: Amo-te. A verdade, é que sempre te amei, e como me detesto por nem isso te conseguir negar.
Não te estou a pedir o mundo. Não te estou a pedir a eternidade. Sei que não existe. Estou-te a pedir que, na efemeridade do tempo que vamos vivendo, leves todas as intempéries que me atormentam e que me tragas dias melhores, longe de todas as mentiras que julgo já ter vivido contigo.
“Não te vais arrepender?”
“Não…”
“Tens a certeza?”
“Absoluta”
A única certeza que tenho (e mais uma vez te confesso) é a de que te quero voltar a sentir em mim, como senti, ontem. De que importa se me vou arrepender? De que importa isso quando, hoje, me podes fazer sentir tão bem… De que importa o dia de amanhã quando eu nem sei se vou estar cá para te poder dizer o que nunca te disse… De que importa o futuro, quando a única certeza que temos é o presente inerente à condição de seres humanos, de animais racionais, conscientes e consciencializados do que somos, do que fomos e do que, inevitavelmente, iremos ser.
O pó que, um dia, irei ser vai permanecer na vida dos que vêm, para mostrar que um dia alguém amou tanto, sentiu tanto, deu tanto: para, depois, acabar como todos os que não ficam.
Ninguém disse que por virmos ao mundo tínhamos que ser felizes… visto que a vida é o maior prazer que alguém nos pode dar. É o melhor direito que todos podemos exigir. O Amor, esse, é uma arma biológica, um amigo, um inimigo. É o melhor dos pecados, e o mais pesado também.
“With eyes closed we're gonna spin through the stars”
“Gonna take a boat to the end of the world”
“I don't know why I can't keep my eyes off of you” "
23:23H
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